sábado, 30 de junho de 2018

TAG e fobia social

Olá,

Não é uma coisa que eu goste de comentar. É quase um segredo. Mas minha família sabe, porque nesse dia ela teve que cuidar de mim.

Foi durante a adolescência. Eu me sentia diferente, além de muito feia 👹. Não tinha os mesmos comportamentos que os outros da mesma idade. Parecia que só viam defeitos em mim: 

- Você quase não fala! 
- Largue a timidez em casa! 
- Todas as moças da sua idade não usam roupas desse jeito (eu usava muita camisa larga porque não gostava dos meus ombros... muito magros).  
- Os meninos olharam para todas, menos para você. Está muito magra.
- Isso que você senti é falta de fé ou namorado. 

O aparecimento da acne, menstruação, problemas escolares (o local parecia sempre muito abaixo dos padrões que eu queria)... qualquer dificuldade seja em casa ou em outro ambiente me jogava para baixo. Um dos lugares que frequentava na infância, a Igreja, foi perdendo a graça, porque a linguagem não me agradava mais. Às vezes, eu me sentia dentro da história do Patinho Feio 🦆, mas que nunca encontrava o grupo do cisne. 


Eu nunca fui muito espontânea. Converso pouco. Mas também não era mal humorada. Só muito sensível. Quase não tinha amigos. Já apresentava sintomas de ansiedade, mas não tinha noção do que era isso. 

Um dia me convidaram para uma festa, era um show de rock de uma banda dos meus vizinhos. Eles eram fãs da banda Raimundos (na época, o Rodolfo era membro). Bem, a festa começou e eu fiquei sentada em frente a porta, porque não conseguia entrar. Eu não tinha coragem de voltar para casa e contar o que acontecia. Minha mãe iria brigar comigo, ela achava que era uma esquisitice minha, que eu não sabia me comportar em público. 

* nessa época, eu gostava de fazer coleção de notícias internacionais. Escutava críticas horrorosas, porque ninguém - exceto eu - fazia isso.

Fiquei lá por mais de uma hora... até que um rapaz me abordou e falou: 

"Você é a Carla? "
"Sim."
"Não está gostando da festa?"
"Eu não consegui entrar."
"Não precisa de ingresso, você já pagou sua parte."
"Eu sei, mas não consigo entrar."
"Não seja tímida. Eu te acompanho."

E assim eu entrei na festa. Estava muito apreensiva, mas outros adolescentes foram conversando comigo e fui me acalmando. Até ri um pouco. Hoje eu tenho noção de que isso é fobia social. 

Ao chegar em casa, fiquei pensando como é que eu me livraria dessa coisa ruim que eu sentia. Essa coisa me fazia sofrer bullying em todos os lugares. 

Peguei um monte de medicamento, nem sei quais eram, tomei todos. Talvez eu fosse um erro. Talvez o fim trouxesse paz. E assim tentei morrer. Eu tinha 17 anos. Não pensei em cartas de despedida ou ameaçar de fazer isso. Só pensava que o fim iria me trazer paz. 

Minha família ficou desconfiada, porque eu não levantava da cama. Fiquei muito mal. Como ninguém queria contar nada, cuidaram de mim em casa. Minha mãe como sempre brigou comigo e depois me deu uma canjica doce para comer. Meu pai ficou com o coração partido. 

Depois desse dia, tive que começar a fazer terapia. Mas troquei de psicóloga aos 19. Vou nessa psicóloga até hoje. 

Imagino que talvez muitas pessoas possam se identificar com uma parte de mim. Ainda fico chateada quando apontam meus defeitos. Não consigo ficar em ambientes de muito conflito. E tento, o máximo que posso, lidar com a frustração. Como faço tratamento para a ansiedade, consigo controlar a fobia. Decidi que quando algo me incomodar, era melhor ir embora... ignorar a pessoa... falar abertamente sobre o que incomodou... ou rolar na porrada 👊 - último caso.

Comecei a me aceitar. Eu sei que não sou igual e que nunca serei. Se eu tivesse já de posse disso desde nova, teria sofrido menos... sido mais feliz. 

Entenderam porque eu falo tanto de inclusão no blog. Se você tem um rótulo, você terá também as principais características que podem te afetar e poderá lidar melhor com algo que incomoda a você e a outros. 

Eu gosto muito de filmes, mas esse ainda não pude assistir, pois não consegui em lugar nenhum. É baseado em um documentário da BBC chamado "Beautiful Young Minds" - que também não assisti - sobre prodígios da Matemática. Um deles, o Daniel Lightwing, é duplo excepcional: Superdotado com Síndrome de Asperger. É na história de Daniel que o filme X + Y se inspira: nas suas fobias, falta de habilidades sociais e sua ida para uma Olimpíada Mundial de Matemática.


Desejo amor e felicidade a todos. E se sentir algo semelhante, é bom procurar orientação profissional. Meus 60 mg de cloridrato de paroxetina tem me ajudado muito.

Tudo de bom,

Carla

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