segunda-feira, 30 de abril de 2018

Altas Habilidades em meu irmão

Olá,

Já citei em várias postagens a respeito da amizade que tenho com meus irmãos, principalmente o meu irmão caçula.

Apesar da diferença de idade, temos muitas coisas em comum: somos portadores de altas habilidades.

Eu tive maior facilidade de socialização que ele, mas sofri um muito com o preconceito por ser mulher e "diferente".  Olha esse episódio infantil:

"- A Carla começa a brincadeira! -  gritou uma colega.
- "Gata amarela pulou a janela..." - eu 👧.
- Hã?!!!!! Não tem gata, é "vaca amarela"!
- 😕Mas a vaca é gorda e tem as patas finas, se ela pular a janela vai ficar manca! 
- 😂😂😂😂😂! É maluca mesmo!" - meninada."

Ou ficava com fama de maluca ou me tiravam da brincadeira. 

Quando criança, meu irmão gostava de cantar muito. Na fase bem infantil (1 a 3 anos) , ele gostava de cantar as músicas da Cássia Eller, principalmente essa: "Eu só peço a Deus / Um pouco de malandragem / Pois sou criança / E não conheço a verdade"... se tinha a palavra criança, ele entendia que a música era somente para as crianças cantarem: "Brincadeira de criança, como é bom, como é bom...". Os programas infantis preferidos eram Castelo Rá-ti-bum, Bruxa Onilda, Madeline e os desenhos da Disney. Esqueci do Sítio do Pica Pau Amarelo.

Aos poucos, ele foi ficando encantado com o Indiana Jones (por causa do videogame Nintendo do meu outro irmão) e ficava só falando de códigos secretos. Não sei como funciona a alfabetização, mas aos cincos anos ele lia bem. Quanto ao escrever: Que letra feia! Eu e meus irmãos tínhamos cadernos de caligrafia por exigência da escola, mas somente eu fazia as atividades. Os outros dois jogaram os cadernos fora. 

Quando saiu da creche e foi para a escola estadual, ele não fazia amizades e não queria ir a escola. Minha família procurou uma psicóloga para ajudar. Mas achou que o resultado não estava sendo satisfatório (minha família gosta de resultados rápidos). Mesmo assim, por causa de algumas reações dele, a psicóloga alertou que não era para ser tão brava ou exigente, pois ele já se cobrava muito. Em casa, ele era carinhoso, um pouco sapeca, mas não gostava de muita proximidade de pessoas "de fora". Um dia ele chegou contando que uma professora "cara de jacaré" (ele apelidou todas da escola pública) havia abraçado ele. Mas ele era comportado. 

Na escola particular teve uma adaptação melhor, a sala não era tão cheia, mas continuou sem fazer amizades (não, ele não tinha inimigos). Se recusava a participar de excursões escolares ou atividade religiosa infantil. Ele começou a ter autonomia e não precisava ficar vigiando para fazer atividades escolares ou jogar videogame. Mas um dia, ele se esqueceu de estudar para uma prova de matemática. Ele teve dificuldade em responder as questões. Ele ficou abalado. 😨Ninguém comentou nada, pois ele já estava remoendo muito. Depois ele fez uma tabela com datas das provas para não esquecer. Lidar com um erro seu ou frustração é muito difícil. 😭

Os Dinossauros foram uma grande e longa paixão. Nem eu que fazia faculdade de Ciências Biológicas tinha tanta preocupação com tantos nomes científicos dos lagartos extintos. A paixão foi tanta que dei o meu jaleco para ele. 

Aos poucos, ele foi crescendo e novos heróis foram se juntando aos Dinossauros e Indiana Jones, mas eram temporários: Homem Aranha; Yu Gi Oh (como eu odiava aquelas cartas... argh!); Dragon Ball e outros (na locadora de filmes os funcionários conheciam o menino que adorava filmes com monstros feios: Godzilla, King Kong, Anaconda, Alien, Serpentes assassinas, AracnofobiaSinais - ele decorou as falas desse filme - ...). Esqueci do nojento Joe e as Baratas (meus dois irmãos amavam esse filme. Nunca assisti. Argh!). 





Acho que por falta de lançamento de filmes de dinossauros, os mesmos foram dando lugar ao Harry Potter e Piratas do Caribe. Essa fase foi legal. Eu conseguia assistir aos filmes, ele acha a atriz que fez o papel da Hermione (Emma Watson) muito bonita. Eu sempre fui a companhia de cinemas e museus, pois temos alguns gostos em comum (exceto, os monstros, não tenho medo, mas também não tenho afinidade por lagartos assassinos).

Mas a paixão por mistérios e códigos não foram abandonadas. Um dia, ele me perguntou sobre um tal de Código da Vinci. Devia ter uns 11-12 anos. Ele queria conhecer o livro. Eu já trabalhava e perguntei algumas pessoas que tinham lido se havia algo pornográfico, vulgar ou "pesado" no livro. Como todos me falaram que não havia "nada demais", comprei o livro e um criptex (foi muito caro ... nunca mais, ano passado o Manual do Mundo ensinou a fazer um) de presente para ele. Ele ficou muito feliz. Nessa época ninguém estava conseguindo acompanhar mais o ritmo de leitura dele... os livros eram cada vez mais "grossos". Eu não tinha terminado a coleção Harry Potter ainda. Aproximadamente dois anos depois, eu li o Código da Vinci e fiquei boquiaberta: "Você não podia ter lido isso, era muito jovem! "

Nessa fase, ele foi ficando mais fechado. Só tinha um amigo vizinho que jogava videogame. Nem lembro que videogame que era. Acho que Playstation. 

Um dia, chegou uma visita. A mãe pediu para chamá-lo. Ao avisar sobre cumprimentar a visita, ele foi bem categórico: "Por que eu tenho que cumprimentar os outros se não estou querendo?" Várias vezes, vi ele sendo arrastado para cumprimentar os outros com a cara de tédio!

Mas esse comportamento melhorou. Ele cumprimenta. Talvez não converse tanto, mas cumprimenta e é educado. 

Os lagartos feios voltaram: Prometheus, Um lugar silencioso, Mundo dos Dinossauros, Vingadores, Liga da Justiça.... dividem espaço com a faculdade de Administração e livros de "direita" (Hã?, mas acho que a parte política dele ainda está amadurecendo). Eu gostei do Dr Estranho:


Nem sempre o Portador de Altas Habilidades se encaixa naquele perfil de "Gênio" ou que não precise de ajuda ou que seja apaixonado por matemática. E por conversar pouco não significa que somos autistas. Tanto ele quanto eu não tivemos acompanhamento adequado para Portadores de Necessidades Especiais (PNE). Eu ainda frequento psicóloga por causa da ansiedade e sensibilidade, mas ele não. 

Eu sou mais sensível. Acabo sentindo muito. Às vezes, evito proximidades por causa da sensibilidade. 

Espero ter ajudado contando um pouco sobre o irmão,

Com carinho,

Carla

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